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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A morte e os familiares





Distante das frases feitas “é o que temos de mais certo” e “chega a todos” a morte continua e continuará a ser um dos temas mais sensíveis para quem lida de perto com ela.

Este post é para quem desconhece a realidade da saúde e dos profissionais da área no momento em que têm de comunicar aos familiares que a ligação física com alguém que amavam(?) acaba ali naquele instante mas que no entanto é já um acontecimento esperado e previsível.

Temos quatro tipos de familiares. Primeiro aqueles que quem o doente internado é um fardo pesado demais e para quem a morte é quase A solução. Para estes o acto de transmitir a notícia da morte é frio, sem emoções envolvidas e esperamos do outro lado uma reacção de alívio e de quase satisfação.

O segundo tipo de familiares serão os conscientes e realistas. Sabendo que o familiar internado está num estado delicado e que é uma situação irreversível, no momento em que são confrontados com a notícia têm a normal reacção de dor e tristeza associado a quem perde fisicamente alguém que para eles é muito importante. No entanto devido ao acompanhamento que deram ao familiar doente reconhecem a complexidade da situação e a “normalidade” do desfecho.

O terceiro tipo de familiares que por diversos motivos não conseguem aceitar a situação de vulnerabilidade do familiar internado e consequentemente a experiência de lidar com a morte de alguém próximo é traumático e eternamente doloroso. Quando são confrontados com a morte do doente internado, há uma reacção de choro convulsivo, de rejeição, negação e de quase raiva sobre o transmissor da informação.

O quarto tipo de familiares são os indiferentes. Não havendo o cuidado de seguir a evolução da situação de doença, a morte do ente é apenas o finalizar de um processo que passa quase vazio no quotidiano. Felizmente será o mais raro mas quem lida de perto com estes processos de luto e de morte reconhecerá a presença de este tipo de atitude.

Todos nós já passámos por um processo de luto e de perda de alguém significativo e certamente não será difícil conseguirmos identificar que tipo de familiares somos.

Contudo será importante referenciar que ao longo da nossa vida podemos saltar de grupo para grupo derivado da nossa experiência e situações vividas, do familiar envolvido no processo de morte e das situações que estiveram relacionadas com toda a experiência de doença e morte .

P.s Este texto não é nem pretende ser uma crítica a ninguém.

P.s2 A reacção do familiar é directamente relacionada com o profissional que transmite a informação. O tipo de profissional e a sua capacidade de passar a mensagem de um modo menos doloroso será também alvo de um post aqui :)

9 comentários:

Enfermeira disse...

É um tema que gosto muito...e como trabalho com Oncologia ele se faz presente o tempo todo..E realmente esse frase é verdade : A reacção do familiar é directamente relacionada com o profissional que transmite a informação. Bju Grande!

Enfermeiro disse...

Felizmente ou infelizmente está sempre presente na nossa vida :)

beijinho

cantinhodacasa disse...

Fui ao blog da Diana e chorei. Vim ao blog do enfermeiro e mais uma vez as lágrimas caem-me desesperadamente por este rosto abaixo, inundando-me a roupa que visto.
É que, já passei por várias situações de morte de familiares e, todas elas foram recebidas de maneira diferente.
Hoje digo, e as pessoas devem pensar que sou fria, que temos de aceitar a morte como algo natural. Mas isso é o que digo, porque, na realidade, há momentos que mais apetece fugir, desaparecer, chorar, rir, para que o nosso pensamento tome consciência que é a lei da vida.
Aprende-se a viver com a ausência, mas nunca conseguimos entender o porquê de tudo isto.
A saudade, a tristeza, a revolta não se apagam facilmente.
Morremos com ela.
Vou guardar este seu post com muito carinho, porque o modo como o escreveu foi também "dito" com muito carinho.
Beijinho

Enfermeiro disse...

Eu acho que a pior coisa que podemos fazer são juizos de valor. Se é fria... introvertida..expansiva..isso é uma caracteristica tão pessoal que não deve ser discutido...

No entanto é bom termos um auto conhecimento que nos ajude a perceber se essas caracteristicas sao prejudicais..não para os outros..mas para nos... as vezes usamos esse "frio" como uma defesa..mas acabamos por nos atacar mais do que propriamente defender...

beijinho

fantasia disse...

Olá!
Só para dizer uma coisa me relação às famílias que parecem indiferentes à morte de um familiar. Não acredito que, só se estiverem mesmo afastados da pessoa em questão, consigam ser pessoas que só aceitam a morte como o finalizar de um processo. Penso que não o mostram e isso é uma forma de não se exporem , porque não sabem como agir, não lhes parece real, funciona como uma defesa.

Eu digo isto, talvez para justificar a minha própria atitude. Eu numa situação muito crítica mostrei-me sempre indiferente como se não fosse nada comigo. Tentei aguentar sempre e andar sempre para a frente ...até que chegou um dia que não consegui mais. E então aí tive de aprender a mostrar que não aceitava aquilo que se passava, por mais que magoasse seja lá quem for. Tive de aprender a ser egoísta, para me proteger.

Ninguém têm um irmão (com 12 anos eu tinha 14) internado nos UCI durante meses sem saber como voltava a casa e se algum dia voltava, e reage com uma indiferença total perante a situação. Só chorei quando o vi pela primeira vez no hospital, muito mais magro e "careca". Depois tornou-se rotina.
Nunca deixei de estudar a pensar nele (se calhar devia ter parado).
Nunca mais ninguém me viu a chorar... só a minha mãeu ma vez ou outra e muito depois disso. E a aparente indiferença, não o é de todo.

Gostei do blog. :)

Enfermeiro disse...

Eu sinceramente também achava que era impossivel haver essa indiferença..contudo... fui percebendo que nao é bem assim... há pessoas que são frias a esse ponto..há pessoas que sentem que o "fardo" acabou...Há pessoas que nao sentem a morte dos familiares...
Infelizmente.

Dou um exemplo bem demonstrativo...
Há dias apos a morte de um doente...liguei pra familia pra comunicar...e a resposta foi tao simplesmente: Aleluia... ja vai tarde..e sim..foi um filho... liguei pro marido e a resposta foi: e o que é que eu tenho a ver cm isso?

Perante isto..e nao sendo caso unico...Tou convicto que há mesmo pessoas frias a esse ponto.

fantasia disse...

Ui! Isso existe mesmo?

Ok. Retiro o que disse, dos inúmeros hospitais que visitei apenas vi uma situação em que os pais pouco se importavam com a filha (porque era toxicodependente e fez o que calhou aos pais não sei bem a história), mas tinha sempre o marido, pelo menos uma vez por semana a visitá-la. E ela estava numa unidade de cuidados continuados fantástica!

Mas assusta-me um bocado essa realidade.

fantasia disse...

Só uma coisa, agora a reler o post penso que não me expliquei bem. O meu mano tem aguentado mas os médicos já nos desenganaram e agora dizem que uma pessoa em estado vegetativo pode viver anos ou décadas!

Só para esclarecer isto :)

Enfermeiro disse...

Assusta me também..mas é um sinal dos tempos, um sinal de falta de sentido de familia e sinal de coisas bem mais graves que nem vale a pena falar...

Quanto ao estado vegetativo...pode viver durante muitos muitos anos..

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